domingo, 4 de maio de 2008

Rainha Libertine





O horror vazio daqueles olhos não podia ser de caso pensado. Não aqueles tremores pelo alto da minha consciência.
Nem a falta de ar deles, dentro da minha impossibilidade de renunciar o prazer.
O olho, nos espiando eternamente no buraco, pedindo para ser nosso.Lá dentro do oco, do impensado, fazíamos nossas coisas estranhas, eu sonhava em possuir e ser possuída, como se dependesse dessa condição para me salvar.
Heroína das relvas e dos sonhos prostituídos.

Eu era puta e tinha dinheiro para não ter rumo, comprava túmulos, jóias, espadas e pessoas talentosas.
Minha beleza ocre e paulatina não era de suspender os pés do chão. Mas tinha um dom, ou qualquer fenômeno desses que as pessoas horrorizam e cospem com três olhos. Eu atiçava com vara curta o impossível.
Eu abria as pernas para leprosos e aidéticos. Despertava o desejo humano com banho de éter na espuma da minha raiva nas manhãs de sol medonho. Eu era a espuma da raiva desejante. O desejo que corrompe as visões de um eclipse, porque era o desvio para o chão na hora mais sublime.

Estive com menino Proust noite dessas. Ele chorava até seus pulmões arderem o futuro, a ausência. Eu não podia mudar nada, mas o violentei, com o único beijo de boa noite de sua vida, o que pode comprometer todas suas colheres de chá e nossas asmas.
Meu amor virulento corrompe e bestifica. Porque sou Libertine e preciso transbordar.

Por que Mamãe nunca veio?Esta pergunta era como o móbile que me nanava a cada noite, com as músicas celestes de um Chopin punheteiro ou Paganini endiabrado. Mas ela ia para os bailinhos da igreja, a vagabunda.
Esta é a razão de meu mandato de enforcamento desta pessoa.
Que não veio me beijar na noite mais sufocante das minhas vertigens.
Trocou-me por Deus, jurou.
Na verdade por um menino bonito de pau grande, sorriso de puritano, estudante de teologia e tocador de Chopin.
Deus me tirou minha mãe na pica de um moleque metido a bonzinho. Que Deus a consuma.
Mostrava meus peitos para o moço pervertido, mas ele dizia que um boquete da filha da amante não pegava bem, sem desviar-se dos meus peitos. Tive que asfixiá-lo e possuir seu cadáver, não havia outra chance para mim ou para mamãe e até Deus estaria fodido. Mas isso não passava de um sonho.

Tive dois anos de contato com a anorexia porque só queria beber a porra dele e me negava a qualquer outro tipo de alimento. Vez em quando jorrava, quase seca na boca de alguma vagabunda, companheira da noite, que não me assustasse o pedantismo.
Vou esticar com calma o patamar no qual me atirei do andar sexagésimo e ainda perco as flores dentro do cabelo, Ofélia me recomenda banhos de mar doce, porque perturbei suas convicções, enquanto cantava sentidos de desaparecer no amor de um louco.
Só posso postular que desejo aos instrumentos de meu cirurgião renascentista, uma orquestra mais do escuro, virada para dentro, do avesso de minhas torres atômicas, onde plantava flores de Hiroshima ao anoitecer, para serem roubadas pelos sete samurais enquanto eu gozava com uma das Múmias da antiga Paris, ou algum marginal da Sé.

Interrompendo uma noite de delírios, Caio, o menino de mamãe, saiu emputecido do quarto dela, com o roupão importado mais brega do armário materno, cheia de firulas e babaquices elisabetanas. Eu com meu livro de Anais Nin na mão, a roupa de não dormir luxuriosa e um senso de derrotismo por ele, não dei muita atenção. Apesar de segurar um riso demente entre as coxas. Queria mais era saber como o pintor faria para ejacular na modelo de Anais.
Nenhuma palavra, só o som da raiva dele e uma mão escapando para dentro do labirinto dos meus seios, em trinta passos para a minha forca.
”Filho de uma puta”, pensei com o sexo ardendo no forno das putas que só ganham quando já desistem.
Jogando o livro no chão e praguejando uma boa noite tremida, alvoroçada, tentei fugir para meu quarto. Só pensava com qual dos meus instrumentos românticos, literários, artigos de borracha ou couro eu calaria meu furor. Queria na verdade furar seu lombar com minha língua de chicote.
Não houve tempo para pensar muito, nem para calar labaredas. Fui agarrada impiedosamente pela cintura e colada junto ao corpo do menino, falso puritano(sim eu a rainha me sentia uma vítima da Bíblia proibida) .
De costas, no corpo dele, senti pela primeira vez o paraíso que espiara tantas vezes por um buraco, no quarto de mamãe, para o meu porão.
E estava em mim, na minha carne, roçando um convite que me entontecia a ponto de não saber o caminho do quarto ou do laboratório dos meus fetiches.
Meu império estava preste a ser arruinado, porque o controle não me pertencia, mas á febre daquele enrijecimento quase rasgando minha camisola negra e um dito afobado no pescoço:
- Nossa Senhora como é gostosa!
“Será que esses estudantes de teologia não esquecem suas divindades nem nessa hora?” Pensei, com raiva, com tesão.
Ele me queria para se vingar de minha mãe, ambos sabíamos e eu já não o queria para me vingar de nada, simplesmente porque pela primeira vez, as regras sórdidas do desejo que eu programara por toda uma vida, haviam se quedado.
Eu estava simplesmente desejando, queria foder como se fosse a primeira vez, como se tomasse para mim toda a força do universo, em união carnal.
Tentava pensar em fazer amor com ele e não sabia se aquilo me aumentava o desejo ou a náusea.
Foi meu primeiro beijo e como foi bom. Línguas brincando em mares de bocas caóticas, mordidas nem sempre sutis, a saliva com gosto de fruta alcalina.
O mundo resumido naquilo.
Era primeira vez que me entregava, eu era só um medo ridículo, espantalho do qual os corvos faziam piadinha. Afinal, que tipo de puta estava me abandonando?
Como todas, temia o amor e tremia como se estivesse na retina da onça. Um jogo nas minhas cartas trocando uma lasciva por uma virgem.
-Pare Caio, não agüento mais. Dizia, sem perceber que seu pau estava na minha mão. Isso me passou batido, coisa de uma criança que rouba por instinto um doce e enfia na boca, porque sabe que ama aquilo, mas não sabe o que é roubar.
Caio era meu túnel do terror, em plena descida vertiginosa da montanha, eu queria aquele corpo, miragem no deserto aguado. O brinquedo macio e duro ma minha palma enegrecia a visão.
Ele ria baixinho, sussurrando que eu era uma menina doce que tinha tudo que ele precisava.
Como eu raramente usava peças intimas, não foi difícil para Caio me achar na imensidão do negro. E naquele encontro de sexos, Rainha Libertine morria, para eu nascer.
Soube que nada sabia do prazer até então, que era tudo um grande ensaio triste e porco para disfarçar minha solidão. Aquele calor, aquela completude de nós se rangendo, um som divino, a porra quente de Caio na minha boca, me salvava de tudo.
Agora entendia porque mamãe ia tanto aos bailinhos da igreja e porque tinha me abandonado. A fé me atacara:

“Santo pau do meu delírio, rasgai-me, amém!”.

Meu orgasmo que terminou na boca de Caio, me fez soltar um som tão estranho, como de uma fera sendo espetada, quis correr atrás dos meus barulhos antes que eles alcançassem o próximo andar, onde ficava o quarto de mamãe. Deus como minhas batidas do coração correram atrás daquilo.
Tarde demais, ela vinha, com um olhar rajado de sangue, as mãos fechadas e meu fim em uma rosa branca, esmagada no ventre:

-Sua putinha estragada, até meu amante você comeu?
-Não fale assim da minha futura esposa!

Caio tinha reagido, eu não sabia o que fazer, o que tinha feito, só pensava em esconder minha nudez e meus pecados.

Engravidei de Caio, gêmeos encantadores e encapetados.Ele os amava e me amava, fugia às vezes da igreja para me ver, sempre jurava casamento, “mas Deus meu amor, preciso de Deus”.
Mamãe resolveu seguir sua vocação e virou prostituta de luxo, ganhava muito bem e de vez em quando me dava uns trocados para leite, fraldas e cigarros e até um beijo na testa.
Vendi todas minhas posses, raspei a cabeça e sai da casa dela com meus pivetes para morar num sobradinho periférico que prometia felicidade.
Fui me tornando uma santa que se masturbava constantemente, com a sagrada visão da pica do meu puritano, na companhia de Chopin, Anais, a asma de Proust e uma bandeira de ouro escondida debaixo da cama.

E quando eu puder ver um manequim sorridente dentro da minha sopa, com as pernas arregaçadas, lambidas autoritárias e o peito vazio não me esquecerei de quem nunca fui.

Rainha Libertine? Às vezes, saímos de mãos dadas em alamedas primaveris chutando corações como latas vazias e lambendo sexos solares.



(Foto: "Reflexo Inviolável" de Ricardo Pozzo....obrigada pela contribuição!)

9 comentários:

  1. Rita. A densidade psicológica da personagem é de nos deixar arrepiados. Perdi-me dentro do texto, pra procurar pelo centro dessa criatura (humana?!) complexa e simples; quase cotidiana. Não sei se fodeu comigo ou me estuprou. Que texto!!

    Fantástico, todo seu, todo cheio de pequenos enigmas que não queremos decifrar mas sabemos de cor. Ótimo.

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  2. Rita tem a capacidade de transportar o leitor para suas histórias. Crua e sem meia palavras instiga, envolve e marca com seu estilo.
    Rita é única. Erotismo denso, caótico e real.
    Segue costurando seus textos com a linha mágica do surreal.

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  3. Poético, erudito e excitante.

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  4. A Rita é de uma intensidade fora do comum! Conforme fui lendo fui instantaneamente sentindo o cheiro de sexo, gosto da porra e o quarto impregnado de libido.
    Rita, minha musa, está perfeita!
    A contista perfeita dos podres das carnes. Amei!!!

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  5. Nossa, que loucura essa hem?...
    Muito bem narrado o texto. Gostei muito e quase acreditei no porque de os genros não se darem bem com as sogras, rsrrss

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  6. Li e vou reler tantas vezes eu conseguir, porque é um dos melhores textos que já li na minha vida. Maravilhaaaaaa. Adorei sua Rainha Libertine.

    =***

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Néon


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